Antonio Costta
Este livro inscreve-se no campo da literatura memorialística e da crônica social com notável densidade estética e afetiva. Trata-se de uma obra que, embora ancorada na experiência individual do autor, transcende o plano autobiográfico para constituir um espaço simbólico de resgate cultural, identidade regional e resistência narrativa.Ambientadas majoritariamente no município de Pilar, na Paraíba, as crônicas deste livro propõem um mergulho no universo da vida cotidiana nordestina, especialmente no interior do estado, apresentando personagens, paisagens e situações que remetem a um Brasil muitas vezes ausente das representações hegemônicas. Ao lançar mão da crônica como forma predominante, Antonio Costta consegue articular memória e tempo presente em uma prosa que preserva marcas do lirismo poético, herança perceptível de sua trajetória literária anterior.O estilo adotado pelo autor não busca a espetacularização da realidade, tampouco idealizações saudosistas. Ao contrário, revela-se em sua simplicidade uma sofisticada elaboração da linguagem, que valoriza a escuta, a observação e a atenção aos detalhes cotidianos. Elementos da oralidade, traços da cultura popular e referências afetivas locais — como a feira do Pilar, a enchente de 1985, ou personagens como Seu Júlio e a mulher Soledade — conferem à obra um caráter antropológico, ainda que não sistemático, e um valor documental importante.